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» » » » Luiz Gonzaga: Rei do Baião, Rei do Nordeste - parte 2

| Conheça esta grande figura da música brasileira nesta série da BLUEZinada! |

Luiz Gonzaga do Nascimento, o rei do nordeste brasileiro

No dia 13 de Dezembro, uma sexta-feira, nasce, na fazenda Caiçara, terras do barão de Exu, o segundo de nove filhos do casal Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus, que na pia batismal da matriz de Exu recebe o nome de Luiz (por ser o dia de Santa Luzia) Gonzaga (por sugestão do vigário) Nascimento (por ter nascido em dezembro, também mês de nascimento de Jesus Cristo.
(Fonte: Luiz Lua Gonzaga: cronologia)

Luiz Gonzaga passou sua infância num típico lar sertanejo: cercado de irmãos e primos, todos criados juntos, uns entrando e saindo da casa dos outros. Todos na comunidade se conheciam e viviam da terra, do comércio e de serviços, como seu pai, Januário, conhecido tocador de fole em toda a região. Além de animar bailes e festas com seu fole de oito baixos, Januário mantinha em sua casa uma oficina onde afinava e consertava sanfonas vindas de todos os povoados vizinhos. No sertão, assim como na maioria das comunidades rurais, a vida é regada à música, seja no trabalho na roça, nas procissões, missas, nas feiras com os repentistas, no aboio dos bois ou nas festas que aconteciam (e ainda acontecem) frequentemente.

A figura do sanfoneiro, ou tocador de fole [1] era peça fundamental nesse cenário, o que fazia com que Januário conhecesse muita gente e sempre tivesse trabalho nos fins de semana, seja no Exu ou nas cidades vizinhas. Assim, o menino Luiz desde cedo manteve uma relação muito íntima com a musicalidade: não raramente era flagrado espionando a oficina do pai e tentando tocar nos foles que os clientes deixavam para algum serviço, o que lhe rendeu a capacidade não só de tocar no instrumento, como também afiná-lo, limpá-lo e consertá-lo. Com o tempo seu pai também passou a permitir que o acompanhasse nos bailes e viagens que fazia a trabalho. Quando estava maior já lhe era permitido tocar um pouco enquanto o pai descansava:

Januário Percebeu que o filho tinha um dom para a música. Passou a chamá-lo para o conserto das sanfonas. Viu que o moleque tinha um bom ouvido. Formou-o, e o menino se tornou piloto de provas do pai. [...] Aos poucos, Gonzaga ia aperfeiçoando sua técnica no fole. Até que Januário achou que o filho podia acompanhá-lo nos bailes. Santana relutou. Mas Januário insistiu, implicou, brigou e passou a levá-lo consigo aos “sambas”. Feliz, Gonzaga animava o baile com seu fole, revezando com Januário, até cair de sono. E nisso, o fole também caía! (DREYFUS, 2007, p.41)

Em 1924 a família de Gonzaga mudou-se para a Fazenda Várzea Grande, no povoado do Araripe, devido a uma cheia do riacho da Brígida, no Exu. Lá, era tradição que os filhos dos trabalhadores, ao completar doze anos, trabalhassem dois dias por semana para os patrões. O jovem Gonzaga escapou desse fardo ao conseguir que o coronel Manuel Aires de Alencar passasse a levar o menino consigo em suas viagens para que tomasse conta de seu cavalo. Sua esperteza logo conquistou a simpatia do fazendeiro, o que acabou lhe rendendo algumas regalias, como aprender a ler e a ter boas maneiras à mesa. Assim, através do trabalho, o futuro rei do Baião conseguiu comprar sua primeira sanfona com um dinheiro que economizou mais um empréstimo que pediu ao coronel.

Aos quatorze anos, já na vida artística, era cada vez mais requisitado para tocar em bailes sem a presença do pai. Com isso já conseguia ajudar financeiramente em casa, além de investir em sua vaidade: mandava fazer suas roupas para que sempre pudesse estar alinhado, o que o levou, juntamente com a fama que começou a adquirir, a outra de suas grandes obsessões: as mulheres. Nessa época já começou a contrair doenças venéreas e conheceu aquela que considerou seu primeiro grande amor: Nazarena, aquela que, de certa forma foi a responsável pela grande virada em sua vida. O pai da moça, que era branca e pertencia a uma distinta família da região, não gostou dessa história de sua filha namorar um “reles” sanfoneiro negro. Insultado, Luiz decidiu tirar satisfações com o homem na feira. Santana, como era conhecida sua mãe, ao saber do acontecido, levou-o de volta para casa e lhe aplicou a famosa surra que fez com que ele decidisse fugir de casa.

Gonzaga, em 1930, fugiu para Fortaleza e ingressou no Exército, mentindo sobre sua idade. Foi aí que começou a perceber que o mundo era bem maior e mais complexo do que imaginava. Apesar de ter participado de algumas manobras durante a Revolução de 30, ainda não estava satisfeito com sua nova vida: queria viajar, conhecer novos lugares e pessoas. Foi quando agarrou a chance de ir para o sul do país. Entretanto, havia vendido seu fole para comprar a passagem para Fortaleza, então começou a aprender violão, além de tentar a carreira de corneteiro no exército. Desde a venda nunca mais tinha tocado num fole.

Ainda assim, Gonzaga não perdera o contato com a música: sempre que era possível, escutava o rádio. Sabia todos os grandes sucessos e conhecia todos os grandes artistas da época. Em 1936 teve contato com sanfonas mais complexas que as de oito baixos, as únicas que sabia tocar. Conseguiu comprar uma de 48 e começou a tentar tocar as músicas que ouvia nos programas. Começaram a surgir oportunidades de tocar profissionalmente e sentiu a necessidade de comprar uma sanfona melhor. Aceitou uma proposta de comprar uma de 80 baixos em prestações para depois buscá-la em São Paulo, o que acabou acontecendo. Mais tarde, já na cidade, descobriu que fora trapaceado, mas por ironia do destino conseguiu comprar, pelo valor que faltava pagar para a retirada do instrumento, uma sanfona idêntica, pertencente ao filho do dono do hotel onde se hospedara.

Nessa época teve fim a carreira militar do futuro rei do Baião. Conseguiu uma passagem para o Rio de Janeiro, onde se hospedaria num quartel até a chegada do navio que o levaria até Recife. Enquanto isso não acontecia, o jeito era se entregar à sanfona e sair nas noites cariocas para se distrair. Inicialmente acompanhado por um amigo do batalhão, logo se sentiu em casa. Descobriu que poderia fazer dinheiro tocando nos bares. Haviam músicos tanto dentro quanto fora deles, e quando um de fora atraía algum público, os donos dos bares os traziam para dentro. Obviamente não demorou a acontecer isso com Luiz.

Porém, os ritmos que aprenderam com o mestre Januário ainda não eram evocados na sanfona branca de Gonzaga e sim o que aprendera a ouvir no rádio: valsas, tangos, foxtrotes e até blues. O tempo foi passando e foi se enturmando, conhecendo as mais diversas pessoas e ritmos, afinal, gente de todas as partes do mundo andavam por lá. O navio para o Recife chegou, mas Gonzaga decidiu ficar: logo já tinha um lugar para morar (de favor) e já era conhecido no bairro. A vida noturna o havia fisgado e dela começava a colher bons frutos. Além disso começou a interessar-se pelos programas de calouros, como o de Ary Barroso, onde tocava até sambas e chorinhos.



[1] A palavra “sanfona” era usada até o período anterior ao auge do Baião na região sul do país e popularizou-se no nordeste graças ao próprio Luiz Gonzaga.





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Publicado por Distintivo Blue

BLUEZinada! é uma zine produzida pela Distintivo Blue e distribuída gratuitamente, desde 2011. Saiba mais sobre a banda:

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