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| Conheça esta grande figura da música brasileira nesta série da BLUEZinada! |

Luiz Gonzaga do Nascimento, o rei do nordeste brasileiro

Em meados de 1940, Luiz Gonzaga ignorava suas influências de raiz, que aprendera em Pernambuco com seu pai e sua comunidade. Buscava se integrar ao modo de vida carioca, eliminando até mesmo seu sotaque original e imitando o sotaque da capital. Foi quando conheceu um grupo de estudantes cearenses para quem tocava em troca de refeições. Um grande marco em sua vida se deu quando sugeriram que ele tocasse “algo do norte”. Gonzaga relutou, alegando que não saberia mais tocar aquelas músicas que aprendera num fole de oito baixos e que provavelmente não interessaria aos fregueses dos bares. Mero equívoco que foi logo desfeito quando o sanfoneiro começou a tocar duas destas músicas, que mais tarde seriam registradas como “Xamego” e “Pé-de-Serra” num dos inúmeros bares cariocas. A euforia foi total: as pessoas vinham da rua para saber que som era aquele tirado da sanfona de Gonzaga. Sua alegria ao perceber isso não tinha tamanho.

Gonzaga passou a se tornar relativamente conhecido nos programas de auditório, mas seu objetivo neste momento seria conseguir um contrato para trabalhar em alguma rádio. A essa época ainda tinha de sustentar seu irmão, José Januário que aparecera pedindo ajuda devido a uma seca que castigava sua terra natal. Zé Gonzaga, como se tornaria conhecido posteriormente, passou a ser seu ajudante, assim como o próprio Luiz fora de seu pai. Assim, com a responsabilidade de criar o irmão e de ajudar a família no norte, experimentou tocar a “música do norte” no programa de Ary Barroso. Foi ovacionado pela platéia e abriu, nesse dia, grandes e importantes 
portas para sua carreira.

Foi convidado a trabalhar com um de seus ídolos do rádio, o Zé do norte, na Rádio Transmissora. Além disso teve sua sanfona gravada pela primeira vez numa música de Genésio Arruda. Logo após, em 1941, conseguiu gravar suas primeiras músicas solo. Começou a aparecer em revistas e sempre enviava cartas para a família contendo dinheiro e as últimas notícias. Nesse período Luiz fora convidado a trabalhar na Rádio Tamoio, onde surgiram as primeiras idéias de ser, além de sanfoneiro, um intérprete, o que não foi recebido com muito entusiasmo por parte dos figurões da emissora. Já na Victor, Gonzaga tentava cantar de todas as formas e sempre acabava reprimido, já que havia sido contratado como sanfoneiro e não como cantor. Então passou a ceder suas músicas para que os outros cantassem, como Carmem Costa.

Para conseguir cantar, Luiz ameaçou assinar um contrato com a Odeon, como cantor, usando um pseudônimo e manter o da Victor, como sanfoneiro. Assim, gravou sua primeira música como cantor, “Dança Mariquinha” num lado do disco e “Impertinente”, um instrumental, no lado b. Ainda em 1945, gravou “Cortando o Pano” e “Caxangá”, outro instrumental. A aceitação foi boa e projetou o sanfoneiro pernambucano como artista já na Rádio Nacional, maior rádio brasileira na época.

Foi em 1945 que nasceu o filho de sua companheira no momento, Odaléia Guedes:



Ela, mulher avançada para o início dos anos 40, cantora da noite, dos dancings, tentando sobreviver enquanto a morte não vinha. Os dois se conheceram em 1944 e o romance durou menos de dois anos. Chegaram a morar juntos na parte inferior de uma casinha no Morro de São Carlos e em dois apartamentos, no Méier e no Estácio. (ECHEVERRIA, 2006, p.14).

Existe uma polêmica acerca da paternidade de Luiz Gonzaga, que registrou o garoto com seu próprio nome: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha. Hoje sabe-se que o “pai” era estéril e jamais poderia ser o pai legítimo do garoto, mas ainda assim fez questão de assumi-lo como se fosse seu. Provavelmente Gonzaga sensibilizou-se por saber que Léa estava sozinha no mundo e grávida de algum desconhecido. Além disso ela precisou ser internada por estar com tuberculose e Luiz fez de tudo para que sua já ex-companheira recebesse os melhores cuidados médicos. O garoto foi entregue a um casal de amigos para que o criassem, mas sempre enviava ajuda financeira e, sempre que podia, aparecia para ver o “filho”.

Enquanto isso continuava a luta por conseguir tocar a “música do nordeste” de forma satisfatória. Havia uma certa tendência a isso no cenário musical sulista. Vários eram os artistas nordestinos procurando a melhor forma de se expressar sua região através da música. Enquanto isso havia no país uma busca pela “verdadeira música nacional”, numa tentativa de valorizar o nacional. Buscava-se definir bem qual seria a identidade do autêntico nacional.



Nesse processo, as músicas, seja erudita, seja popular, deviam divulgar as noções de civismo, fé, trabalho, hierarquia, noções indispensáveis à “construção de uma nação civilizada”. Não deveria ser atravessada pelos ruídos e dissonâncias do meio urbano, e, por isso, a música nacional seria a música rural, a música regional. Uma música modalista como aquelas produzidas pelos cegos de feira no Nordeste, que, embora fosse ligada remotamente aos cantos gregorianos europeus, era vista Omo uma manifestação musical autêntica do país. (ALBUQUERQUE JR, 2006, p. 153).

Luiz Gonzaga buscava então um bom letrista para suas músicas, já que não se considerava bom neste quesito. A tal pessoa, entretanto, deveria ser alguém que, como ele, soubesse profundamente a intimidade nordestina. Deveria ser alguém capaz de traduzir perfeitamente seus sentimentos em forma de poesia. Após várias tentativas, chegou a um advogado cearense que poderia muito bem cumprir tais requisitos: seu nome era Humberto Teixeira, e já tinha certa experiência musical, com várias de suas composições gravadas por outrem, porém, nada ainda tipicamente nordestino. Luiz foi visitá-lo e já nesse primeiro encontro compuseram “No meu pé de Serra”:

Lá no meu pé de serra 
Deixei ficar meu coração 
Ai, que saudades tenho 
Eu vou voltar pro meu sertão 
No meu roçado trabalhava todo dia 
Mas no meu rancho tinha tudo o que queria 
Lá se dançava quase toda quinta-feira 
Sanfona não faltava e tome xóte a noite inteira 
O xóte é bom de se dançar 
A gente gruda na cabôcla sem soltar 
Um passo lá, um outro cá 
Enquanto o fole tá tocando, tá gemendo, tá chorando, 
Tá fungando, reclamando sem parar.


A música traduzia perfeitamente o que Gonzaga queria para suas músicas, mas foi com a segunda parceria que conseguiram realmente entrar para a história da Música Popular Brasileira e para o time dos artistas de ponta do período: a canção chamava-se “Baião” e, por incrível que pareça, não foi gravada por Gonzaga, e sim pelo conjunto Quatro Ases e um Coringa, com ele apenas acompanhando-os na sanfona. Apenas três anos depois o Brasil conheceu a canção na voz do futuro rei.




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Publicado por I. Malforea

BLUEZinada! é uma zine produzida pela Distintivo Blue e distribuída gratuitamente, desde 2011. Saiba mais sobre a banda:

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