Cat-1

Cat-2

Cat-3

Cat-4

» » » » Luiz Gonzaga: Rei do Baião, Rei do Nordeste - parte 5

Luiz Gonzaga do Nascimento, o rei do nordeste brasileiro



"Ao término de 1957, podia-se dizer que Gonzaga alcançara seu objetivo; tinha criado lançado e implantado com êxito uma expressão musical para o Nordeste. Nas estradas do sucesso, perambulavam cada dia mais discípulos do Rei do Baião; o Nordeste transformara-se em celeiro de compositores e autores de real valor; a cada dia, surgiam novos sanfoneiros, crias do Gonzaga. Enfim, o baião e todos os seus derivados eram conhecidos nacionalmente, e até mesmo internacionalmente. A história atingira seu apogeu. Viria em seguida o declínio, como tudo no espetáculo do mundo." (DREYFUS, 1997, p. 205).

É provável que nem o próprio Luiz Gonzaga imaginasse que faria escola, e que essa escola seria tão extensa e diversa. Após a explosão do baião, o nordeste e o nordestino passaram a habitar o imaginário popular do restante do país, especialmente a região sudeste, de onde transmitiam as principais rádios, que atingiam mesmo outros países latino-americanos. Antes do baião o nordeste era ignorado: os principais veículos de informação eram sediados no eixo Rio-São Paulo e não se tinha uma ideia muito clara da realidade do nordestino, sobretudo do sertanejo.

Ao evocar a sua própria realidade vivida durante a infância, Luiz Gonzaga clareou as idéias dos chamados sulistas, ainda que de forma extremamente caricata. Gonzaga ajudou a promover a ideia do nordeste rural, castigado pela seca e ignorado pelos políticos. O nordeste do matuto sem estudo e que mais cedo ou mais tarde acaba por migrar para o sul em busca de uma vida mais digna. O nordeste ao mesmo tempo se tornou a terra do sofrimento e a terra da pureza, da saudade, do contato direto com a natureza, dos cangaceiros, e da religiosidade ingênua.

"Em vários momentos, a música de Gonzaga transmite uma visão bem-humorada da “vida matuta”, em que o próprio nordestino ri de si mesmo, se autodeprecia, assume o papel de bufão, embora esse humor também vitime o homem da cidade e o sulista. Aliás, este tipo de bufão nordestino rende, desde a década de quarenta, no rádio e no cinema, e desde a década de sessenta, na televisão, um dos tipos mais constantes nos programas e filmes de humor. Tipos montados sobre todos os estereótipos construídos em relação ao nordestino nas grandes cidades do sul, onde o preconceito torna-se risível e, por isso mesmo, mais impregnante ainda. O nordestino passa a encarnar sozinho o estereótipo ligado ao “matuto”, o jeca, gestado nas décadas anteriores." (ALBUQUERQUE JR, 2006, p. 161).

Sabe-se que a mídia necessita trabalhar com ícones de fácil assimilação e que transmitam uma imagem simples e marcante para que se formem conceitos (ou pré-conceitos) imediatos. Luiz Gonzaga mostrou-se um ícone perfeito para que se imaginasse o nordestino e atendesse à necessidade crescente de uma definição da identidade do brasileiro legítimo. Porém, Gonzaga ao mesmo tempo em que retratava o nordeste rural, o fazia de forma moderna e urbana.

Ao promover esse Nordeste, Gonzaga também conquistou o povo de quem falava: o sertanejo, realmente sofrido e que mais cedo ou mais tarde vivia algum de seus temas, como a migração ao sudeste ou os vaqueiros e seu cotidiano. Um bom exemplo disso é a canção “A Morte do Vaqueiro”, escrita em parceria com Nelson Barbalho. Após seu lançamento criou-se a tradição de se fazer uma missa de protesto na região do Araripe, a Missa do Vaqueiro, financiada pelo próprio Gonzaga até o ano de 1974, como forma de denunciar a miséria e o descaso das autoridades para com o povo sertanejo. A missa foi uma homenagem, além de aos vaqueiros, a um parente (vaqueiro) chamado Raimundo Jacó, que havia sido assassinado. A letra da canção era fator inspirador da missa:

Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo,
Ei, gado, oi
Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo,
Ei, gado, oi
Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora
Sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor
Tengo, lengo, tengo, lengo,
Ei, gado, oi

Continua na próxima semana.
<< PARTE 4 | PARTE 6 >>


Clique no banner abaixo para acessar a página inicial da série:

...
«
Próximo
Postagem mais recente
»
Anterior
Postagem mais antiga

Publicado por I. Malforea

BLUEZinada! é uma zine produzida pela Distintivo Blue e distribuída gratuitamente, desde 2011. Saiba mais sobre a banda:

Nenhum comentário

Comente aqui embaixo:

Leia!

Ouça!

Assista!

Cat-5

Cat-6