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Distintivo Blue. Foto: divulgação
Antes de chegar à atual formação, a Distintivo Blue passou por diversas fases. Até 2014, dezesseis músicos passaram pelo projeto. Muitos deles vieram de bandas já consagradas no cenário do rock local, tais como o Fernando Bernardino (Os Barcos), Diego Andrade (Ladrões de Vinil) e o Thomaz Oliveira (Café Com Blues). Sem falar nas idas e vindas do guitarrista Camilo Oliveira da antiga The New Old Jam, a qual deu origem a DB.

O nome do grupo se deu por meio de uma expressão usada pelo amigo e irmão do atual* baixista (Lú do Blues), o qual dizia que ter o distintivo blue é ter o dom ou habilidade para fazer o blues. As influências são variadas e partem tanto dos antigos clássicos internacionais, como Robert Johnson, Jimi Hendrix e The Doors, aos brasileiros como a Legião Urbana, Raul Seixas e Barão Vermelho.

Por conta das dificuldades, começaram com um som acústico que, com o tempo, foi se expandindo e dando origem a novos trabalhos. Após o primeiro show, gravaram a canção Luar de pontal, composta para a The New Old Jam, mas que nunca foi executada. A música fez parte da coletânea Máfia da Mortadela, lançada em 2010, da qual a DB foi a única representante fora do eixo Rio-São Paulo. Segundo a entrevista com o produtor do projeto, Roberto Terremoto, para o site Megaphone, as letras retratam bem a nossa realidade, mostrando que o blues também pode ser feito em português.

No mesmo período, a banda gravou mais três músicas, a instrumental Extempore blues, por Rômulo Fonseca, De cara no blues, de Thomaz Oliveira e Blues do covarde, por Malforea. Após um ano, lançaram o primeiro EP, Aplicando A Lei, em um dos principais programas de rock da cidade, O Som da Tribo. A DB tirou cento e dez fotos diferentes para que cada unidade do disco tivesse seu conteúdo único. Por isso, a primeira edição do EP foi limitada, tornando-se raríssima**.

As iniciativas não se limitaram a gravações de CDs, encartes e questões burocráticas. Para ampliar o acesso e divulgação, lançaram no mesmo ano a BLUEZinada!. A zine é distribuída gratuitamente e produzida pelos integrantes em formato de livreto. A cada edição é possível saber, em oito páginas, sobre todas as notícias vinculadas ao grupo, com dicas culturais e textos diversos. Tudo é registrado de acordo com as necessidades da banda, por isso não existe uma periodicidade certa.

Ainda sobre a iniciativa, vale ressaltar algumas curiosidades. Muitas pessoas não sabem, mas antes de começar a ter contato com antigas bandas locais, como a Tomarock ,em 2004, e a The New Old Jam, o vocalista I. Malforea atuava como roteirista freelancer do Maurício de Sousa, cujo contato começou aos quinze anos de idade. Além disso, foi licenciado em História e tanto o Rômulo Fonseca quanto o Camilo Oliveira seguiram a vida acadêmica. Tais fatos explicam, em grande parte, a preocupação com o meio social e mostram que muito do que aprenderam não se restringiu à sala de aula, tanto que o trabalho não se limita às informações do grupo e todos podem ter acesso.

Após um ano (em 2012), a DB voltou a lançar mais um disco, o segundo EP Riffs Shuffles, Rock N`Roll, que, assim como o primeiro, traz o encarte virtual, mas com uma capa única. Com uma formação mais equilibrada de integrantes, o álbum conta com a faixa O álcool me persegue, da Cama de Jornal, e a própria Na trilha do blues, a qual trouxe grandes participações no X Festival de Música Educadora FM e o segundo volume da coletânea Máfia da Mortadela, lançado em outubro do mesmo ano.

Em entrevista para o veículo de comunicação local, O Rebucetê, a DB comentou sobre o processo de composição do disco, ainda quando contavam com a participação do Camilo Oliveira. A reportagem chama atenção para o caráter diferenciado do grupo e explica a escolha da música O álcool me persegue, da Cama de Jornal, para integrar o projeto. Para os integrantes, a versão tem uma cara mais humorada e as próprias composições não chegam a fazer parte de canções de lamentos e “dores de cotovelo”, como a maioria dos artistas que aderem ao estilo. “O pessoal tenta seguir essa linha aqui no Brasil, mas acaba em boa parte dos casos não sendo verdadeiro, é só uma questão de imitar os caras de lá”, acrescenta o ex-guitarrista.

No ano de 2013, a DB lançou o single 2012, Miopia, o qual também rendeu grandes frutos no cenário baiano. A música foi classificada para participar do X Festival de Música da Bahia e o seu título foi escolhido por meio de uma seleção realizada no mesmo site da banda. Além de se tratar de uma crítica social, parte da canção foi composta no momento em que a cidade estava em maior desespero.

Com a greve da polícia em toda a Bahia, em fevereiro de 2012, o número de violência e roubo aumentou absurdamente, deixando muitas pessoas aflitas e com medo de sair de casa. Além disso, fazia pouco tempo que a nova edição do programa Big Brother Brasil havia começado a ser transmitido pela rede Globo. Esse e outros fatos inspiraram a letra por se tratar, principalmente, de problemas reais em momentos de distrações que o próprio reality show oferecia, como aponta os trechos abaixo:

A polícia em greve
Não temos saúde
Trancados em casa
Sem ter quem nos ajude
E então se segure:
A bolsa caiu!
O mundo acabando e só se fala em Big Brother Brasil

Dinheiro
Não há por aqui
E como pode o fruto do nosso trabalho
Assim, do nada, sumir?

Televisão
Ou mundo real?
“Não tenha medo de sair de casa quando for carnaval!”

O prédio caiu
O rio transbordou
Na terra do frio
Se morre de calor
As tropas nas ruas
Com escudo e fuzil
O mundo pega fogo e só se fala em Big Brother Brasil

Tanto a canção 2012 Miopia quanto Blues do covarde e Luar de Pontal, compostas pela DB, fizeram parte da coletânea do livro Letristas em Cena, lançado oficialmente em setembro de 2013. A obra faz parte do projeto Clube Caiubi de Compositores, produzido pela Branca Tirollo, da editora Sotaques, em São Paulo. O projeto também conta com um portal, no ar desde 2008, voltado para diversos compositores, intérpretes, poetas ou produtores e demais interessados.

Em 2014, após paralisar as atividades, o grupo voltou com participações em diversos eventos e com o lançamento do terceiro EP, Orgânico, em formato todo acústico. O disco foi feito com o objetivo de mostrar a verdadeira cara da banda, de forma livre e despretensiosa, incluindo apresentações em praças, ensaios e locais do gênero. Além dos próprios trabalhos e a coletânea da Máfia, a DB fez parte de vários projetos como o Best - Brazilian Blues e o Discover: Brazilian Blues, lançados em 2013.

O último período também propiciou novas oportunidades de partir para outros estados. Os eventos, antes mais focados ao território baiano, como festival Avuador, Natal da Cidade e Festival Suíça Bahiana, abriam espaço para a realização de turnês. A passagem por outras cidades do Nordeste, no último ano, fez com que o grupo percebesse o quanto tem sido valorizado, muito mais pelo público de fora do que local. A turnê gerou uma matéria para a Revista Gambiarra, em março de 2014, cuja reportagem muito elogia o desempenho do grupo, destacando os ensaios abertos ocorridos na praça Guadalajara em Vitória da Conquista, mais conhecida como a praça da Normal.

Apesar das diferenças de idade e percalços, a trajetória da Distintivo Blue muito se compara a das grandes bandas, embora não tenha o mesmo reconhecimento. O grupo conseguiu fazer muito mais do que bandas antigas, como a Excalibur Rock Band e a Mictian, em poucos anos de existência. Atualmente, a DB vem divulgando o mais recente álbum, Todos os Dias – Vol. I, lançado em setembro de 2015.

Por outro lado a DB poderia ter feito muito mais do que o esperado se não fosse a dificuldade de manter integrantes e outros entraves. A banda passou todo o ano de 2011 em formato acústico. Inclusive, uma das maiores perdas veio em setembro da mesma época, quando o ex-baixista Junior Damaceno veio a falecer, vítima de uma agressão. A Café Com Blues também havia passado três anos parada somente para definir o estilo da banda, voltando a se apresentar na cidade em dezembro de 2013.

Hoje, comparando a história de ambos os grupos, é possível desconstruir a ideia de que a falta de profissionalismo é o principal fator responsável pelo não alavancamento de muitas bandas baianas no cenário brasileiro. Apesar da facilidade de acesso à internet e os principais veículos de comunicação, muitos grupos ainda lutam por espaço. Por não serem tão reconhecidos em âmbito nacional, o blues baiano ainda é encarado com estranheza e poucos conseguem enxergar uma evolução.


* A formação da DB já sofreu alterações, desde a composição do livro.
** A segunda edição veio com uma capa diferente e contou com patrocínio do BNB (Banco do Nordeste do Brasil) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)


Raquel Dantas nasceu em Vitória da Conquista-BA. Amante da música independente brasileira, conviveu desde cedo com vários artistas locais. Chegou a cursar Pedagogia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, mas acabou desistindo para se dedicar ao desenho e à escrita. Seu primeiro livro, A Conquista do Rocklançado em maio 2017, já nasceu pioneiro ao registrar a história da música independente local.



Próxima parte: amanhã (25/08)







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Publicado por I. Malforea

BLUEZinada! é uma zine produzida pela Distintivo Blue e distribuída gratuitamente, desde 2011. Saiba mais sobre a banda:

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